Contribuições da Neurociência

“Quem acumula muitas recordações felizes em sua infância está salvo para sempre.”
Feodor Dostoievski

 

Neurocientistas tem pesquisado sobre o desenvolvimento do cérebro infantil e chegaram à conclusão que o cuidado caloroso e responsivo exerce uma função biológica protetora, diminuindo ou eliminando os efeitos adversos do stress ou de traumas que possam vir a acontecer na vida futura da criança.

O desenvolvimento cerebral inicia-se na 5a semana de gestação. Ao nascer, o cérebro do bebê pesa em torno de 330 gramas e já conta com cerca de 100 bilhões de neurônios.

O cérebro de um feto produz praticamente duas vezes mais neurônios do que vai eventualmente precisar, o que funciona como uma margem de segurança, aumentando as chances dos recém-nascidos terem cérebros saudáveis. No nascimento, o cérebro humano está muito pouco desenvolvido, a maioria dos 100 bilhões de neurônios ainda não estão ligados em rede, isto é, não se estabeleceram as sinapses. Sinapses são as ligações necessárias para que o cérebro comande os mais diferentes movimentos do corpo, decodifique e classifique informações recebidas pelos órgãos dos sentidos, identifique e compreenda sentimentos, desenvolva o raciocínio verbal, numérico, etc. A principal tarefa do desenvolvimento cerebral inicial é a formação e o reforço dessas ligações.

“As conexões entre os neurônios se formam à medida que a criança em crescimento experimenta o mundo que a cerca e estabelece ligações com os pais, com os membros da família e com os outros cuidadores (Shore, 2000 pág.51).”

Ao serem utilizadas e reforçadas na vida diária, as sinapses passam a fazer parte do circuito permanente do cérebro, mas, caso não sejam utilizadas freqüentemente ou com certa continuidade, elas serão eliminadas. Logo, os vínculos afetivos e as experiências vividas desempenham um papel fundamental no desenvolvimento do “circuito cerebral” de uma criança.

O primeiro ano de vida é o período de maior aprendizado na vida do ser humano, em nenhum outro período de vida, o indivíduo aprenderá tanto, e em tão pouco tempo.

Aos dois anos, o cérebro produz o dobro de sinapses, as conexões entre os neurônios, e consome o dobro de energia que o cérebro de um adulto.

Aos três anos, o cérebro já pesa em torno de 1.100 gramas e, quando adulto, 1.400 gramas. O aumento de peso e volume cerebral é o resultado das sinapses.

De zero aos três anos são construídas 90% das sinapses que formam os circuitos responsáveis por ligar as diferentes áreas do cérebro.

As sinapses produzidas neste período irão ajudar a formar o cérebro da criança em relação à motricidade, à psique, à aprendizagem e às experiências afetivas e amorosas, resultantes da sua interação com o ambiente.

Quando ocorre negligência por parte dos pais, quando o vínculo estabelecido é fraco, a criança se torna propensa à violência. É o que demonstram pesquisas de longo prazo que estudaram crianças cujos principais cuidadores estavam emocionalmente indisponíveis nos primeiros anos de vida. Essas crianças realmente demonstraram maior agressividade e problemas de conduta na infância e adolescência.

No entanto, a resposta em relação ao trauma e à negligência varia de acordo com diferenças individuais. As crianças mais passivas, retraídas ou introspectivas tendem a se tornar deprimidas. Por outro lado, as mais ativas, mais extrovertidas têm propensão a serem mais agressivas.

É importante lembrar que a possibilidade de superação de comprometimentos e traumas que tiveram origem na infância vai depender muito do quanto isso foi ou não profundo, mas esta possibilidade está sempre presente, seja em maior ou em menor grau.

O desenvolvimento cerebral depende de uma complexa intermediação entre a carga genética herdada, as experiências vividas, sejam positivas ou negativas, e as condições afetivas, materiais, sociais e culturais, que serão determinantes para sua maturação, saúde mental e para a expressão de suas potencialidades e competências emocionais, motoras e cognitivas.

Os neurocientistas através de suas pesquisas complementaram e confirmaram o que aprendemos com a psicologia sobre a grande importância dos cuidados com a primeira infância para o desenvolvimento global do ser humano. É possível e necessário atuar através de projetos para que o desenvolvimento infantil seja mais sadio. O retorno econômico dos investimentos no desenvolvimento da primeira infância são altos, na medida em que trazem vários benefícios sociais, diminuindo a incidência de casos de delinquência juvenil, criminalidade e violência, promovendo a saúde psíquica garantindo uma melhor e maior produtividade dos cidadãos adultos, diminuindo também a pobreza através de um melhor aproveitamento escolar que terá como resultado, adultos mais aptos e preparados para o trabalho e para uma vida adulta mais digna.

Resiliência

Resiliência é um termo vindo da física que para verificar a resistência de materiais promove testes aplicando pressão ou provocando um choque nos materiais testados. Resiliência, para os físicos é a propriedade pela qual a energia armazenada em um objeto deformado por um choque ou pressão é devolvida quando cessa a tensão causadora de uma deformação elástica.

Você pode verificar esta propriedade amassando um copo plástico, se a pressão não for muito forte, é possível desamassar o copo e ainda utilizá-lo, mas se a pressão for grande o copo pode se rasgar ou se partir.

Psicólogos estudando o comportamento humano reconheceram esta propriedade da física também na forma como o ser humano lida com traumas e dificuldades e definiram como: resiliência é a capacidade de minimizar, prevenir ou superar os efeitos nocivos das adversidades e ainda participar de uma vida ativa e cheia de significado.

A resiliência não é necessariamente uma história de sucesso, mas sim uma história de luta e transformação. Crianças e adultos que tenham na sua história pessoal situações adversas como por exemplo: alcoolismo, drogas, doenças psiquiátricas, abandono, violência, privação econômica extrema, abuso físico ou sexual podem mergulhar no sofrimento e fazer carreira de vítima ou fazer alguma coisa para transcender este sofrimento.

Resiliente é aquele que inventa uma estratégia de retorno à vida, soluções surpreendentes e frequentemente inusitadas que possibilitam o reparo de uma ferida injusta, a reconciliação com a sua própria história, a possibilidade de um futuro não vinculado ao sofrimento do passado.

Alguns exemplos de crianças resilientes, com alto potencial de superação:

• Crianças que não sucumbem à adversidade a despeito do alto risco pelo qual passam.

– Bebês nascidos prematuros ou crianças com deficiências significativas.

• Crianças capazes de desenvolver estratégias para enfrentar situações de estresse crônico e se sair bem.

• Crianças que sofreram traumas extremos e que se recuperaram.

– Filhos de pais alcoólatras ou pais encarcerados.

– Desastres, abuso físico ou sexual, perda brusca de familiares ou institucionalização.

É possível desenvolver resiliência?

A resiliência está associada a um vínculo importante, saudável e significativo que serve de referência, consolo e estímulo. Pode ser um vínculo do passado ou do presente, mas é sempre descrito pelos indivíduos considerados resilientes como a experiência de se sentir verdadeiramente aceito e reconhecido, isto é, amado.

Muitas vezes há amor nas relações entre pais e filhos, nas famílias, mas este amor não encontra um espaço de expressão.

“Não basta amar uma criança, é preciso que ela saiba, que saboreie esse amor.”

ManuelIzeta

Críticas constantes, desejos insatisfeitos que são projetados nos filhos e falta de abertura para o diálogo prejudicam a percepção do amor nas relações.

Na tentativa de corrigir e educar muitas vezes os pais ou os educadores são muito críticos, se esquecendo de reconhecer as qualidades e características das crianças, ou são muito permissivos tentando minimizar a distância imposta pela vida corrida, pelo trabalho e pela falta de disponibilidade.

A família de origem ou substituta, os educadores nas instituições de acolhimento, a pedagogia e a sociedade tem um papel muito importante no desenvolvimento deste conjunto de competências que promovem a resiliência. São elas:

• Autonomia

É a habilidade de realizar por si só uma tarefa ou de resolver problemas.

• Auto-estima

– É necessário reconhecer as capacidades das crianças e permitir a autonomia possível em cada fase do desenvolvimento infantil.

– Fazer pelas crianças o que elas já podem fazer sozinhas diminui a sua auto estima

– Observar cada criança e perceber o seu potencial individual

– Valorizar cada pequena conquista no desenvolvimento motor e intelectual infantil

– Não fazer comparações, cada criança é única

• Habilidades sociais

– O adulto precisa agir como um mediador de conflitos para as crianças

– Ensinar a compartilhar e a atuar em conjunto, a colaborar

– Todos merecem respeito e consideração ensinando a entrar em acordos, a solucionar problemas

• Estimular a utilização das “palavras mágicas”

• Alegrar-se com as realizações do outro

• Comemorar as próprias conquistas

• Gratidão é algo que se aprende que não é inato

– É necessário ensinar a ter gratidão

• Bom humor

– Tudo fica mais fácil quando tratado com leveza e bom humor

– Diferenciar bom humor de sarcasmo

• Sarcasmo é destrutivo, diminui o outro e não deve ser estimulado ou permitido

• Competência para resolver problemas

– Tenha confiança na capacidade da criança, não se apresse a fazer por

– Não dar definições, desenvolver conceitos através de perguntas,

– Desenvolver a capacidade de pensar de forma crítica, buscando

– Desenvolver a capacidade de buscar ajuda, quando não encontra

• Propósito e confiança no futuro

– Estabelecer um ritmo nos cuidados com o bebê traz segurança e

– Definir prioridades, estabelecer metas e buscar cumpri-las é um ela, deixe que ela tente e experimente antes de oferecer ajuda.

– Questionamentos

– soluções de forma adaptativa

– solução

– confiança no adulto

– Grande aprendizado que ajuda a organizar e realizar desejos ou tarefas e desenvolvem qualidades como persistência e esforço,

As crianças aprendem aquilo que vivem.
Se uma criança vive criticada, aprende a condenar.
Se uma criança vive com maus tratos, aprende a brigar.
Se uma criança vive humilhada, aprende a se sentir culpada.
Se uma criança é estimulada, aprende a confiar.
Se uma criança é valorizada, aprende a valorizar.
Se uma criança vive no equilíbrio, aprende a ser justa.
Se uma criança é bem aceita, aprende a respeitar.
Se uma criança vive na amizade, aprende a ser amiga, aprende a encontrar o amor no mundo.
Dorothy L. Nolte

Patrícia Gimael

Psicóloga com licenciatura pela UNESP – Bauru, bacharelado e graduação pela Universidade São Marcos – SP. Tem formação Junguiana, em Psicologia ampliada pela Antroposofia e em Formação Biográfica. Desde 2010 tem participado ativamente de cursos, no Brasil e no exterior, sobre a Abordagem Pikler, consagrada pedagogia voltada para crianças de 0 a 3 anos. Atende crianças em consultório particular e realiza orientação aos pais desde 1996. Desenvolve, coordena e é docente em projetos de formação continuada para professores da rede pública e privada de ensino com base na Pedagogia Waldorf, no estudo do desenvolvimento infantil, na neurociência e na Abordagem Pikler.

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