O reflexo do isolamento para as crianças

Estamos vivendo um período de muitas incertezas, vulnerabilidade e complexidade. Há muitas previsões sobre o futuro que tentam diminuir as incertezas, mas na verdade, acabam provocando ambiguidade e confundindo. De fato, hoje nosso futuro é incerto, o que gera medo e insegurança.

As crianças quando tem medo correm para o colo da mãe, lugar quente conhecido e seguro que acalma e tranquiliza. O colo acalma as crianças porque elas sentem o nosso cheiro, ouvem o nosso batimento cardíaco, a nossa respiração, ouvem uma palavra amiga que informa que está tudo bem ou que vai ficar tudo bem em breve e ainda encontram o nosso olhar que quando passa tranquilidade resolve todo e qualquer problema.

Mas, e quando os adultos não estão tranquilos? Quando temos medo ou insegurança, será que conseguimos oferecer esse colo que acalma? O que devemos fazer?

Certamente, nós adultos precisamos trabalhar esse sentimento dentro de nós mesmos e encontrar caminhos para lidar com o medo e a insegurança. Precisamos buscar serenidade. Parece que uma das tarefas que nos está sendo imposta por essa pandemia é aprender a viver sem nenhuma segurança em relação ao futuro.

As crianças espelham nossos sentimentos, elas reconhecem quando a nossa fala não condiz com o que sentimos. Elas percebem que muitas coisas mudaram, sentem a insegurança no ar e reagem pedindo mais atenção, não colaborando, regredindo, desafiando e gritando. Na verdade, as crianças vivem de acordo com a forma como nós adultos conseguimos organizar a sua rotina diária. Se estamos desorganizados, ansiosos ou com medo, nossos sentimentos irão afetar a forma como cuidamos delas e as consequências não demoram a aparecer, como por exemplo, as crianças podem demorar muito a dormir, terem episódios de enurese, fazerem birras etc. E tudo isso, torna o desafio ainda maior, exige resiliência, tolerância, escuta e compreensão dos pais.

Quando não estamos seguros, podemos estar presentes diante dos nossos filhos fisicamente, mas não presentes de alma e espírito. Deixamos de olhar nos olhos dos pequenos com tanta frequência e as palavras de acolhimento e consolo podem ficar vazias de significado, ou até mesmo, nos faltar em alguns momentos difíceis.

Quais os caminhos possíveis?

 

A rotina de cuidados e atividades diárias traz segurança e tranquilidade para os bebês e crianças pequenas. Porém, nós adultos somente conseguimos estabelecer e manter uma rotina coerente e harmonizadora quando estamos atentos, observando os sinais oferecidos pelos nossos filhos.

Como eles não estão indo à escola, muitos pais já se deram conta que precisam reservar vários espaços de tempo na agenda para os seus filhos que costumavam ter a atenção da professora e o convívio com outras crianças, mas que agora só tem a opção de pedir atenção para os pais que, na sua grande maioria, continuam trabalhando de casa, fazendo home office.

Só conseguimos ter consistência nas nossas ações quando estamos verdadeiramente presentes, no aqui e no agora, quando reservamos um tempo para oferecer atenção de qualidade aos nossos filhos.

Tanto para nós adultos quanto para as crianças, um exercício para lidar com todos esses medos e inseguranças é identificar tudo de positivo pelo qual podemos ter gratidão. Reconhecer coisas simples da natureza e do cotidiano, como por exemplo, a comida cheirosa sobre a mesa, o pássaro que canta, o lindo pôr do sol, a lua no céu, a planta que cresce, o fato de estarmos protegidos e protegendo a saúde dos nossos familiares e amigos no aconchego dos nossos lares etc.

No dia a dia corrido da vida, que nós costumávamos chamar de “normal”, vivíamos em uma roda viva, uma sequência de tarefas e responsabilidades que não nos deixava ter tempo para estar com os nossos filhos, para observá-los, conhecê-los verdadeiramente e escutar suas histórias, seus medos e desejos. Muitos de nós só falávamos com os nossos filhos sobre as tarefas a serem realizadas. É hora do banho, vamos comer? Vamos guardar os brinquedos, hora de dormir etc.

Que grande oportunidade estarmos juntos em casa. Oportunidade para estabelecer um ritmo sadio em que esteja presente alternadamente a atividade e o repouso.

Brincar é a grande atividade da criança, sendo muito mais séria e importante do que um simples ocupar do tempo.  Segundo Anna Tardos e Agnès Szanto “a criança não brinca, vive. Vive muito seriamente, implicando-se completamente, envolvendo todas as suas funções e todas as suas emoções em cada ato, desde o nascimento” [1]

É importante lembrar que não precisamos conduzir o brincar da criança, o brincar espontâneo que surge do interesse da própria criança é a melhor forma de brincar. Esse brincar autônomo, independente, acontece quando a criança já teve a atenção que precisava, ela se sente segura e sabe que pode contar com o apoio do adulto sempre que precisar. Quando você, adulto, quiser brincar junto com a criança, antes de sugerir uma brincadeira é importante observar, identificar qual o interesse e se engajar na brincadeira da criança. Eventualmente, dependendo da idade do pequeno, é possível perguntar: Do que você quer brincar?

Quando a criança começa a brincar de forma simbólica, ativando a sua fantasia e construindo histórias, ela passa a imitar os adultos nos seus gestos e nos seus afazeres domésticos. Esse interesse da criança abre a possibilidade para envolver nossos filhos nas tarefas domésticas. Esses pequenos trabalhos domésticos cotidianos que fazem parte do dia a dia são grandes oportunidades para o desenvolvimento da coordenação motora, para desenvolver capacidade de organização, concentração e cooperação. Certamente, temos que ter bom senso e fazer junto com a criança para que ela aprenda e possa ter a oportunidade de sentir-se capaz e perceber que ela pode colaborar, o que fará com satisfação quando for convidada. Quando ela se sentir pronta, ela mesma se voluntariará a fazer sozinha, sem que seja necessário que o adulto coloque essas tarefas como obrigações. Pequenas tarefas como por exemplo, colocar uma mesa, levar os pratos até a pia depois da refeição, lavar uma louça, secar a louça, tirar o pó dos móveis colocar água nos vasos, varrer o chão etc. Certamente, as tarefas precisam ser adequadas à idade da criança e a sua capacidade, podendo ser um pequeno, mas não um grande desafio.

Quando todos os membros da família colaboram e cooperam entre si, de acordo com a capacidade e habilidade de cada um, é possível formar um time chamado família que garante o bem estar de todos e de cada um dos membros, com bom humor e leveza.

Nesse período de pandemia, para poder oferecer o acolhimento e o colo necessário aos nossos filhos precisamos acalmar nossos próprios corações e sermos resilientes, sabendo que como toda crise, essa também irá passar.

Nesse momento, em meio a tantas incertezas, precisamos lembrar que o melhor que podemos oferecer aos nossos filhos é a certeza do nosso amor. É essa certeza que irá trazer a autoconfiança e a segurança necessária para que cada um deles possa construir o seu futuro pessoal que vai possibilitar um futuro melhor para todos nós.

 

[1] “O que é autonomia na primeira infância?” in Educar os Três primeiros anos – a Experiência de Lóczy JM Editora. Araraquara – SP, 2016

Patrícia Gimael
Patrícia Gimael

Psicóloga com licenciatura pela UNESP – Bauru, bacharelado e graduação pela Universidade São Marcos – SP. Tem formação Junguiana, em Psicologia ampliada pela Antroposofia e em Formação Biográfica. Desde 2010 tem participado ativamente de cursos, no Brasil e no exterior, sobre a Abordagem Pikler, consagrada pedagogia voltada para crianças de 0 a 3 anos. Atende crianças em consultório particular e realiza orientação aos pais desde 1996. Desenvolve, coordena e é docente em projetos de formação continuada para professores da rede pública e privada de ensino com base na Pedagogia Waldorf, no estudo do desenvolvimento infantil, na neurociência e na Abordagem Pikler.

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