Da vocalização a fala

O desenvolvimento da vocalização e da palavra é um estudo multidisciplinar que envolve pedagogos, psicólogos, psiquiatras, fonoaudiólogos e fisioterapeutas.

A linguagem é um arranjo cultural sistemático de símbolos com significados que permitem que nos comuniquemos sobre coisas que não são visíveis e sobre aquilo que está no passado ou no futuro. Trata-se de uma convenção coletiva e atual que expressa uma forma de pensar e de se relacionar com o mundo e com as pessoas.

Os animais possuem um aparelho psíquico, tem sentimentos. Se expressam através de sons, movimentos e gestos. O ser humano além de possuir o aparelho psíquico, possui também o aparelho linguístico que o capacita a estabelecer a comunicação oral e consequentemente a escrita.

Os órgãos vitais que servem para respiração e alimentação também servem para a fala. São eles pulmão, faringe, laringe, traqueia, esófago, boca, dentes e lábios. Sendo que a respiração e alimentação são necessidades básicas, mas a fala ou comunicação estão ligadas à vontade, ou seja, ao desejo. O ser humano pode viver sem falar.

A comunicação pré-verbal, que acontece antes da aquisição da fala, se desenvolve na parte direita do cérebro (nos destros). A comunicação pré-verbal acontece através da linguagem corporal e expressão facial e está ligada ao afeto. Esta comunicação é analógica. Sendo que a comunicação pré-verbal é pré-requisito para o desenvolvimento da comunicação verbal que é digital.

“Aquele que não compreende um sorriso não entenderá um discurso”

Mário Quintana

A linguagem é ao mesmo tempo analógica e digital, sendo que a linguagem verbal, digital, se desenvolve no lado esquerdo do cérebro. Esta linguagem pode ser recortada, dividida em frases, palavras ou sílabas.

A linguagem não verbal, analógica, é desenvolvida no lado direito do cérebro, sendo que não pode ser dividida e expressa sentimentos.

A linguagem também é uma forma de vínculo é uma construção conjunta entre criança e adultos. A linguagem se estabelece na relação, no contato com a linguagem do outro. Ao se amamentar o bebê descobre o prazer da relação, sendo que a linguagem é uma forma de prazer compartilhado que se enraíza no corpo e na relação.

A linguagem precisa de motricidade, pois acontece através do movimento dos lábios, língua, boca e gestos. Mesmo bebês muito pequenos, recém-nascidos, já são reativos à linguagem e o ritmo da fala, entonação, altura e gesto por traz da fala, isto é, a prosódia. Sentimentos e intenções são captados pelos bebês e crianças pequenas.

Para colaborar no desenvolvimento da fala, fale com os bebês muito antes deles começarem a falar. De que forma? Alguns exemplos:

  • Fale de forma adulta e real
  • Descreva o que está acontecendo no momento e informe o que acontecerá em seguida
  • Valorize e responda a toda e qualquer intenção de comunicação
  • Faça perguntas simples, de fácil entendimento:
    • Você quer um pedaço de maçã ou um pedaço de banana?
    • Você viu um cachorro no jardim, não foi?
    • O que você viu durante a caminhada?
  • Descreva a situação que a criança está vivendo ou acabou de viver
    • Você está se divertindo com este brinquedo, não é mesmo?

 

Atrasos ou dificuldades com a fala podem ocorrer quando há dificuldades para simbolizar, para compreender e entrar no código. Algumas causas:

  • Autismo
  • Quando a criança é muda
  • Dificuldades auditivas ou surdez

 

Mães deprimidas induzem atrasos importantes de fala e de linguagem na criança, pois a reação do adulto em relação à fala da criança pode dificultar o desenvolvimento da falar, como por exemplo quando ocorrem tentativas de comunicação da criança que não são percebidas ou estimuladas.

Mas, o contrário também pode ser prejudicial, isto é, quando os adultos responsáveis interpretam e respondem muito prontamente, não dando tempo para a manifestação da criança, ela não tem necessidade de falar e não treina a vocalização dos fonemas e palavras.

“A língua está atrelada à cultura e influencia nossa vida de modo imensurável. Bebês e crianças aprendem a língua em contextos naturais quando alguém fala com eles, reage ao que eles dizem e presta atenção em sua fala. A língua influencia o modo como eles percebem o mundo, organizam suas experiências e se comunicam com outras pessoas”

Janet Gonzalez-Mena

O bebê ou criança pequena desenvolve a linguagem quando percebe que a comunicação pode mudar alguma coisa, quando é criado um contexto de cumplicidade. A aquisição da linguagem não é simplesmente a aquisição de uma função, mas verdadeiramente, a formulação de todo um mundo inter-relacional, a instauração de uma ponte entre os objetos internos e externos, entre eu e o outro que ajuda a estabelecer o sentido de si mesmo.

 

 

Bibliografia:

GOLSE, Bernard, & COHEN-SOLAL, Julien – “No Início da Vida Psíquica: O desenvolvimento da Primeira Infância” Editora Piaget

GONZALEZ-Mena, Janet & EYER, Dianne Widmeyer– “O cuidado com bebês e crianças pequenas na creche: um currículo de educação e cuidados baseado em relações qualificadas” AMGH Editora Ltda. 9º Edição. Porto Alegre, 2014

 

Patrícia Gimael
Patrícia Gimael

Psicóloga com licenciatura pela UNESP – Bauru, bacharelado e graduação pela Universidade São Marcos – SP. Tem formação Junguiana, em Psicologia ampliada pela Antroposofia e em Formação Biográfica. Desde 2010 tem participado ativamente de cursos, no Brasil e no exterior, sobre a Abordagem Pikler, consagrada pedagogia voltada para crianças de 0 a 3 anos. Atende crianças em consultório particular e realiza orientação aos pais desde 1996. Desenvolve, coordena e é docente em projetos de formação continuada para professores da rede pública e privada de ensino com base na Pedagogia Waldorf, no estudo do desenvolvimento infantil, na neurociência e na Abordagem Pikler.

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