Chupetas – Um antigo hábito a ser questionado

Depois de nascer, a primeira sensação de satisfação, conforto e acolhimento que o bebê sente é através da boca. Ele se alimenta, se aquece e relaxa nos braços da mãe com quem se reconecta, voltando a sentir a sensação de unidade que sentia no útero materno. Logo, não é um simples acaso o fato de que o bebê queira colocar tudo na boca.

Essa é a tão conhecida fase oral que levou a utilização de um objeto também muito famoso chamado chupeta. Desenvolvida com o objetivo de saciar o desejo dos bebês de sugar, a chupeta sempre foi muito utilizada em diversas culturas. Além de se alimentar, os bebês normalmente sugam para se auto confortar, se acalmar, dormir, liberar tensões e relaxar. Para direcionar esse impulso natural, muitas vezes se oferece a chupeta para o bebê que já mamou suficientemente.

No entanto, a chupeta pode se tornar algo mais do que uma resposta a uma necessidade natural. Muitas vezes a chupeta é oferecida quando a criança chora. O choro é a primeira forma de comunicação que a criança tem, sendo um indicador de que alguma necessidade deve ser adequadamente satisfeita. É necessário ler o choro da criança, decodificar suas mensagens para que o bebê perceba que a sua manifestação afeta o ambiente, é significativa e, sim, tem resposta. Esse é o princípio básico do diálogo, da comunicação.

A chupeta impede as vocalizações típicas do primeiro ano de vida que são importantes para o desenvolvimento da fala, tornando-se um obstáculo para o seu desenvolvimento. Ou seja, o uso da chupeta dificulta o desenvolvimento da fala e limita as possibilidades de comunicação.

Chupetas não deveriam ser usadas com os bebês que não estão ganhando peso adequadamente ou que ainda não desenvolveram uma boa pega do peito, porque isso pode oferecer ao bebê tanta satisfação de sucção que ele pode perder o interesse em sugar o peito materno. A musculatura e a posição da língua que o bebê usa para sugar a chupeta é diferente da usada para mamar, o que pode confundir a criança. Chupetas não devem ser oferecidas a recém-nascidos que ainda não estejam com a amamentação estabilizada, se for sua decisão pessoal oferecer chupeta ao seu filho, ofereça depois de três ou quatro semanas de vida do seu bebê.

Chupetas podem ser úteis quando o bebê chora muito e ainda não tem controle suficiente para colocar o dedo ou a mão na boca. Mas, facilmente a chupeta se transforma na única resposta ao choro da criança, sendo que o choro pode ter diversos significados. Chorou, a chupeta é oferecida, sem que haja tempo para identificar qual a demanda real da criança, sem que haja tempo para que o adulto possa reconhecer quais as necessidades individuais do seu bebê.

Chupetas continuam sendo amplamente utilizadas, porque acalmam mais os adultos que têm dificuldades para identificar as necessidades do bebê que chora. Geralmente, os bebês só aceitam a chupeta depois de muita insistência dos adultos.

E o que a princípio pode parecer uma solução, rapidamente pode se tornar um problema, pois como a chupeta é um objeto estranho ao corpo do bebê, quando cai, é o adulto que tem que colocar de volta, mesmo durante a noite e frequentemente, muitas vezes. O uso da chupeta cria dependência, desperta ansiedade e apego demasiado e causa dependência de estímulo oral que pode durar muitos anos causando dificuldades futuras como, por exemplo, problemas na dentição quando o uso é prolongado além dos dois anos de idade.

Quando não oferecemos chupeta para o bebê, ele vai aprender a se auto confortar desde cedo sugando o dedão, os outros dedos, a mão toda ou até mesmo o punho. A única diferença é que fica sob o controle da criança e não do adulto.

Chupeta ou o dedo?

Quando o adulto acredita que é ele quem deve determinar quando a chupeta deve ser retirada ou quando o dedo não deve mais ser sugado, a resposta será sempre que é mais fácil retirar a chupeta e melhor evitar o dedo. Logo, se chega à conclusão que é melhor oferecer a chupeta, apesar de todas as desvantagens listadas acima.

No entanto, aprendi com a Abordagem Pikler que quando reconhecemos que a chupeta ou o dedo é apenas um sintoma natural que indica a fase oral do desenvolvimento infantil, podemos paciente e confiantemente aguardar o amadurecimento da criança que naturalmente irá aprender a se autoconsolar de outras formas, principalmente, se nenhum adulto ficar lembrando e mencionando a todo momento a chupeta ou o dedo. O desejo do adulto de retirar o objeto de consolo da criança, seja o dedo ou a chupeta, cria uma situação de alta ansiedade, aumentando e intensificando o apego.

Em várias escolas de educação infantil há o que se chama de estacionamento de chupetas, local acessível em que a própria criança deixa a sua chupeta e vai brincar. Quando elas querem podem pegar, mas o que frequentemente acontece é que depois da adaptação quando as crianças se acostumam com a escola, fazem amizades e se sentem seguras, elas esquecem das chupetas, passando todo o período sem se lembrar desse objeto.

A chupeta é um objeto que deve cair no esquecimento.

Se o seu filho já utiliza a chupeta, o seu uso deve ser feito com moderação para que não traga dificuldades futuras. Procure diminuir a frequência do uso de forma gradativa e sem imposição. Quanto maior a frequência do uso, mais difícil será abandonar o hábito, logo, a criança não deve ficar o dia inteiro com a chupeta na boca. Coloque algumas regras como, por exemplo, não permita que a criança coma ou fale com a chupeta na boca, não ofereça a chupeta, mas também não deixe de dar quando a criança pedir. Escolha um local conhecido e acessível para guardar a chupeta e faça com que ela saiba que toda vez que ela quiser a chupeta ela poderá ter acesso. Cultive uma relação de confiança com a criança, dessa forma ela se sentirá segura e tranquila com os combinados que você propuser. Combine que quando vocês forem sair ou quando ela for brincar lá fora, a chupeta vai ficar esperando no lugar de sempre. Procure limitar o uso apenas para a hora de dormir e aguarde o dia em que ela será definitivamente esquecida.

 

Patrícia Gimael

Bibliografia:

  • Eisenberg, A., Murkoff, H., Hathaway, S.- What to expect the first year – Workman Publishing, New York, 1989
  • Ansares fatores del entorno -Facilitadores y obstaculizadores del desarollo infantil – Desarollo Primer año II. 4 Infantil de vida
Patrícia Gimael
Patrícia Gimael

Psicóloga com licenciatura pela UNESP – Bauru, bacharelado e graduação pela Universidade São Marcos – SP. Tem formação Junguiana, em Psicologia ampliada pela Antroposofia e em Formação Biográfica. Desde 2010 tem participado ativamente de cursos, no Brasil e no exterior, sobre a Abordagem Pikler, consagrada pedagogia voltada para crianças de 0 a 3 anos. Atende crianças em consultório particular e realiza orientação aos pais desde 1996. Desenvolve, coordena e é docente em projetos de formação continuada para professores da rede pública e privada de ensino com base na Pedagogia Waldorf, no estudo do desenvolvimento infantil, na neurociência e na Abordagem Pikler.

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